O que a ansiedade fez comigo?


Fico remoendo todas as conversas que tenho.

Repasso cada palavra na minha cabeça, procurando significados escondidos: O que será que quiseram dizer com aquilo? Será que fiz alguma coisa errada? Será que deveria ter respondido diferente?

Às vezes, percebo tarde demais o peso das palavras que lançaram em minha direção. Em outras, nem consigo entender exatamente o que quiseram dizer. E há aquelas vezes em que reconheço imediatamente — no tom, no olhar, na maneira como uma frase aparentemente inocente encontra exatamente o lugar onde mais dói.

O problema é que me apego demais às palavras.

Às boas e às ruins.

Guardo elogios, críticas, silêncios, mudanças de tom, respostas curtas demais e até aquilo que talvez nunca tenha significado nada. Algumas situações me atravessam mais do que outras. Há dias em que escuto tanto as pessoas que quase não consigo ouvir o que meu próprio coração está tentando me dizer. Em outros, simplesmente ligo o dane-se e decido que não vou escutar ninguém.

Talvez essa seja uma das coisas que a ansiedade fez comigo.

Tornou-me alguém insegura.

Alguém que desconfia de tudo e sente a necessidade de repassar cada palavra dita, como se em algum momento tivesse deixado escapar uma informação importante. Como se cada conversa fosse um quebra-cabeça que eu precisasse solucionar para descobrir onde errei.

E isso é cansativo.

Porque a ansiedade faz a gente sofrer por tudo e, ao mesmo tempo, por nada.

É desconcertante precisar respirar fundo e engolir o choro na frente dos outros. Erguer a cabeça e continuar caminhando enquanto, por dentro, alguma coisa parece estar desmoronando.

Quantas vezes sorri apenas para não preocupar ninguém?

Quantas vezes me levantei do chão sem sequer ter certeza de que minhas pernas conseguiriam me sustentar?

Olhei para o espelho e disse:

"Vai. Você consegue. Você é forte."

Mesmo enquanto as lágrimas escorriam.

E continuei.

Talvez por isso tantas pessoas tenham acreditado que eu era forte. Elas me viram de pé, mas não presenciaram todas as vezes em que precisei me reconstruir antes de conseguir levantar.

Porque eu também estava fraca.

Estava cansada.

E estive com medo.

E admitir isso talvez seja uma das coisas mais difíceis para alguém que passou tanto tempo tentando convencer o mundo — e a si mesma — de que conseguia suportar tudo.

Mas houve mãos.

Houve abraços.

Houve pessoas que se tornaram porto seguro quando dentro de mim tudo parecia tempestade. E foi assim que me lembrei de algo que a ansiedade tenta constantemente me fazer esquecer:

Eu não estou sozinha.

Talvez eu nunca tenha precisado ser forte o tempo inteiro.

Talvez a força também seja reconhecer que existem batalhas que não precisam ser enfrentadas sem companhia.

A ansiedade me apresentou uma versão de mim da qual nem sempre me orgulho. Uma versão insegura, desconfiada, assustada, que pensa demais, sente demais e transforma pequenas coisas em tempestades enormes dentro da própria cabeça.

Mas ela também me obrigou a reconhecer a minha humanidade.

Eu não consigo tudo sozinha.

Eu posso cair.

Posso chorar.

Posso precisar de alguém.

Posso admitir que alguma coisa doeu.

E nada disso me torna menos forte.

Porque, se existem dias em que caio, também existem tantos outros em que me levanto. Talvez com alguns arranhões novos, talvez ainda tremendo, mas carregando comigo tudo aquilo que aprendi enquanto estava no chão.

Quero acreditar que chegará o dia em que essas inseguranças já não terão tanto poder sobre mim.

Que não vou procurar significados escondidos em cada palavra.

Que não vou transformar silêncios em rejeição, mudanças de tom em culpa ou pequenos acontecimentos em provas de que existe algo errado comigo.

Quero liberdade.

Liberdade para simplesmente existir sem precisar analisar cada passo.

Liberdade para acreditar nas coisas boas sem esperar que algo ruim aconteça logo depois.

Liberdade para ouvir uma palavra e deixá-la passar quando ela não me pertence.

E, principalmente, liberdade para entender que nem tudo aquilo que a minha mente diz sobre mim é verdade.

Todos os dias preciso me lembrar disso.

Quando a ansiedade sussurra que alguma coisa vai dar errado, eu posso questioná-la.

Quando ela diz que não sou suficiente, eu não preciso concordar.

Quando tenta me convencer de que estou sozinha, posso me lembrar de todas as mãos que já seguraram a minha.

E quando ela tenta transformar minha própria mente em uma prisão, preciso recordar que ainda existe uma parte de mim que continua procurando a porta.

Talvez a liberdade não chegue de uma vez.

Talvez ela venha aos poucos.

Em cada pensamento que eu decido não alimentar.

Em cada palavra que escolho não carregar.

Em cada vez que respiro fundo, percebo que não preciso resolver todas as coisas que existem dentro da minha cabeça.

A ansiedade pode falar.

Pode gritar.

Pode tentar me convencer de tantas coisas.

Mas ela não pode escolher por mim aquilo em que vou acreditar.

Essa escolha ainda é minha.

E eu escolho não entregar a ela o poder de definir quem eu sou.


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